Revista Exame PME (Maio/2015 – Edição 0085)

Grandes Decisões

Roberto Castro Júnior Ventrix – Itajubá, MG
Aparelhos para realização e analise de exames cardíacos / Faturamento 40.000 reais
Conquista Recebeu aporte de 5 milhões de reais de dois fundos de investimento

Coração sob cuidados

A mineira Ventrix criou um sistema de diagnóstico de doenças cardíacas que pode interessar a hospitais, laboratórios e empresas de medicina preventiva. Que tipo de cliente deve ser abordado primeiramente? 
Marília Carrera (Revista Exame – PME Maio/2015 – Edição 0085)

De seu consultório em Marília, no interior Paulista, o cardiologista Marcelo Ragazzin analisa exames de pacientes que nunca viu pessoalmente. Ele é um dos adeptos do Cardiofit, um sistema criado pela empresa mineira Ventrix, de Itajubá, em Minas Gerais, com o qual médicos analisam exames cardiológicos de pacientes localizados a quilômetros de distância. A diferença entre o Cadiofit e um eletrocardiógrafo comum é que, depois que o exame é feito, os dados são enviados por meio de um software instalado no próprio aparelho para uma central de diagnóstico remota, da qual fazem parte 30 médicos como Ragazzin. No máximo meia hora depois, o paciente recebe um laudo para saber se está tudo bem ou se é melhor marcar uma consulta com um especialista. “Isso facilita o diagnóstico em lugares onde há poucos cardiologistas”, diz o engenheiro Roberto Castro Junior, de 47 anos, criador da Ventrix.

O Cardiofit é um representante da chamada telemedicina, que é o uso da tecnologia da informação para oferecer serviços médicos a distância. Dados da empresa americana de pesquisas IHS mostram que, só nos Estados Unidos, esse mercado movimentará 1,0 bilhão de dólares em 2018 – quase cinco vezes mais do que em 2013.

Aqui no Brasil, sistemas dessa natureza podem atenuar o problema da distribuição desigual de médicos cardiologistas entre as cinco regiões. Estima-se que o Sudeste tenha 7,6 cardiologistas para cada 100 000 habitantes. No Nordeste, essa proporção cai para 1,9 especialista para cada grupo de 100 000 pessoas. “ Essa particularidade faz com que um grande mercado se abra para a Ventrix, uma vez que, com o Cardiofit, médico e paciente não precisam estar no mesmo lugar”, diz Francisco Jardim, um dos gestores do Fundo de Inovação Paulista, que em fevereiro anunciou um investimento de 5 milhões de reais na Ventrix em conjunto com o fundo Criatec II.

No ano passado, quando o Cardiofit ainda estava em fase de testes, a Ventrix faturou 400 000 reais. “Fornecemos o aparelho gratuitamente para 130 estabelecimentos, como hospitais e laboratórios, e cobramos pelo serviço de emissão de laudos”, diz Castro Junior. Ele acredita que, com esse modelo de negócios, a empresa pode chegar a um faturamento de 1,2 milhão de reais em 2015. Para que esse plano se concretize, Castro Junior precisa definir qual será seu foco comercial a partir de agora.

Basicamente, o Cardiofit pode interessar a diferentes tipos de clientes, entre eles hospitais que contam com poucos cardiologistas em seu quadro, laboratórios de análises clínicas, consultórios privados, empresas de medicina preventiva e até academias que pretendam fazer exames cardiológicos em seus alunos. “Definir que público atingiremos primeiro será muito importante para aplicar melhor os recursos que nós recebemos”, afirma Castro Junior.

Para ajudar o empreendedor a definir o público que será abordado primeiramente pela Ventrix, Exame PME consultou Raquel Marimon, presidente da paulistana Strategy Consultoria, que fornece consultoria a operadoras de saúde, e Mario Sérgio Pereira, vice-presidente da rede de laboratórios Salomão Zoppi Diagnósticos, também de São Paulo. Opinou ainda o empreendedor Leonardo Lima de Carvalho, fundador da mineira ToLife, que desenvolve tecnologias de classificação de risco e gestão de fluxo de pacientes em hospitais.

Veja o que eles disseram:

RAQUEL MARIMON
Strategy Consultoria | São Paulo - SP
Consultoria especializada no mercado de saúde

PROCURAR HOSPITAIS PRIVADOS

  • Perspectivas O setor de saúde no Brasil vive um momento de consolidação. O exemplo mais emblemático é a rede carioca D’Or São Luiz, que tem entre seus sócios o banco de investimento BTG Pactual. Desde 2010, a rede D’Or botou em prática um agressivo plano de expansão e adquiriu 11 hospitais, entre eles o São Luiz, na zona sul de São Paulo. Sua história é uma demonstração de como o mercado de saúde atrai a atenção de quem tem recursos para investir.
  • Oportunidades Dois terços dos leitores disponíveis no Brasil atualmente estão sob administração da iniciativa privada. Em momentos de consolidação, ganha força a ideia de aumentar a eficiência na gestão dos hospitais. Seus administradores costumam estar abertos a experimentar inovações capazes de reduzir custos operacionais ou de permitir que mais gente seja atendida em menos tempo. Parece ser esse o caso do Cardiofit, desenvolvido pela Ventrix.
  • O que fazer Castro Junior deve começar a buscar os administradores de hospitais privados para mostrar como o sistema da Ventrix pode ser útil. Um jeito de ganhar fama nesse meio é montar uma forte equipe de relações institucionais para estreitar o contato com entidades representantes da classe médica.